Pedro Lino está a filmar a biografia do Batalha, o “cinema mítico” do Porto

Foi no festival Il Cinema Ritrovato de 2019, aquando da
estreia internacional do seu documentário “Lupo”, que Pedro Lino
recebeu uma proposta da francesa Kolam Productions: queriam que o realizador escolhesse
um cinema em Portugal para integrar a série
de documentários “Cinemas Míticos”
, que está a contar a história das salas
“mais fascinantes de todo o mundo”.

“Imediatamente, lembrei-me do Batalha”, recorda o realizador
– “É o cinema mais icónico da cidade do Porto e pareceu-me mais interessante
escolher um cinema da minha terra.”

Nascido em 1980, Pedro Lino nunca chegou a ser espectador
assíduo do Batalha, assumindo, no entanto, uma “ligação mitológica” com a sala:
“É claro que todos nós, ao crescermos no Porto, conhecemos o Cinema Batalha. E
eu lembro-me de em miúdo ir ver alguns filmes lá. Mas a minha relação principal
com o Batalha é uma coisa que eu acho muito interessante e que, embora não
conheça a fundo os cinemas do mundo inteiro, acho que é algo quase único: o
cinema fundiu-se com a cidade, já se tornou parte do nosso imaginário, até foi
adotado pelo nosso léxico com a expressão “vai no Batalha”.”

Aos olhos de Pedro Lino, o Batalha é um cinema mítico
precisamente por esta fusão, que resulta do facto de o cinema “ter acompanhado toda
a história do século XX e XXI da cidade do Porto”.

“No século XX, o cinema começou por ser um fenómeno de
massas, numa altura em que os movimentos operários estavam a aumentar de
dimensão e passou a existir uma nova classe, que tinha dinheiro para diversões,
mas que não se identificava com o teatro ou a ópera”, explica. “Mas depois o
cinema foi conquistando outros públicos e foi evoluindo enquanto arte – de uma
atração de feira, de um quase “truque técnico” de captar imagens em movimento,
até se tornar uma arte autónoma. E as próprias salas foram-se adaptando a esta
mudança. Esse é também o caso do Batalha, e nós percebemo-lo pelas suas várias
encarnações: começou como um barracão até ser o edifício que é hoje, que é, até
em termos de arquitetura, um edifício notável do modernismo português e de
destaque em Portugal.”

Respondendo ao repto da Kolam Productions, que pede aos
realizadores que construam uma biografia de cada sala a partir de memórias de
pessoas que ainda as possam evocar, Pedro Lino juntou duas personalidades
marcantes na história do Batalha: Alexandre Alves Costa e Margarida Neves. Os
motivos da escolha são evidentes. Alexandre Alves Costa, arquiteto responsável,
a par com Sérgio Fernandez, pela recuperação do edifício do Batalha e também
filho de Henrique Alves Costa, histórico dirigente do Cineclube do Porto, “lembra-se
de ir ao Batalha praticamente desde que nasceu, porque tanto o pai como a mãe
estavam ligados às exibições do Cineclube do Porto”, revela o realizador. Já
Margarida Neves é descendente de António Neves, um dos fundadores do Batalha, e
atual administradora da empresa Neves & Pascaud, que ainda hoje é proprietária
do imóvel.

A biografia do Batalha será concebida a partir de um diálogo
entre estas duas personagens reais e de imagens de arquivo e filmes antigos da
Cinemateca Portuguesa e dos Arquivos RTP. Serão, ainda, reencenadas pequenas
anedotas conhecidas dos portuenses e que envolvem, de algum modo, aquele cinema.

Mas a história não acaba ali. Pedro Lino quer que o
documentário continue em rodagem até à inauguração do Batalha, “o dia em que o
cinema abre as portas ao público e à cidade do Porto outra vez”. “Nós apanhamos
o Batalha numa altura de grande mudança – e isso é outro ponto de interesse que
o documentário tem. Estamos a contar a morte e o renascimento do Cinema
Batalha.”

O documentário, coproduzido pela Kolam Productions e pela Ukbar Filmes com o apoio da Câmara
Municipal do Porto, da RTP e do ICA, está a ser feito por uma equipa integralmente
constituída por profissionais do Porto – e cujo elenco ainda irá crescer. Além
de Pedro Lino (Realizador), o projeto conta com a colaboração de Dinis
Sottomayor (Diretor de Fotografia), Pedro Balazeiro (Engenheiro de Som), Bruno
Nacarato (Chefe Eletricista e Chefe de Produção), Tomás Valle (Produtor
Executivo), Mário Santos e Mário Moutinho (Elenco).