A Cidade e os Mapas: novo filme de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida retrata um Porto em transformação

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23 Jul 2025

As ruas do Porto foram, recentemente, o cenário do documentário A Cidade e os Mapas, o mais recente filme de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida, produzido pela Olhar de Ulisses. A narrativa acompanha o quotidiano de Akash, um jovem estafeta bengalês que navega a cidade ao volante de uma mota, guiado pelos mapas digitais de uma plataforma de entregas. A partir da sua trajetória, marcada por percursos errantes e desvios imprevistos, o filme propõe uma leitura da cidade.

Inspirada pela fábula de Jorge Luís Borges, Sobre o Rigor da Ciência — onde um império constrói um mapa tão preciso que coincide exatamente com o território, a dupla de realizadores questiona como os mapas digitais se tornaram instrumentos de poder. “Pareceu-nos a imagem ideal para refletir sobre como as plataformas digitais, cada uma com o seu próprio mapa, vão alterando as cidades e a forma como as vivemos”, explicam.

A escolha de colocar um estafeta como protagonista não foi apenas estética, mas política. “Quando conhecemos o Akash, tivemos logo a certeza de que queríamos filmar com ele. Tinha um discurso muito poderoso sobre a precariedade em que as plataformas os colocam, mas ao mesmo tempo estava encantado com a cidade”, conta a dupla. Akash chegou ao Porto durante a pandemia e conhece cada rua como a palma da sua mão.

O filme propõe uma cartografia alternativa da cidade, construída a partir de câmaras 360º que acompanham o estafeta em movimento. A imagem, próxima da estética do Street View ou de um videojogo, dissolve as fronteiras entre o físico e o digital, permitindo à montagem decidir “para onde olhar, como olhar”. Esta abordagem não só reforça o olhar contemplativo, como sublinha a vigilância e o controlo embutidos nas imagens contemporâneas.

Mas o mapa não é neutro e os territórios que cobre estão longe de ser estáticos. “As plataformas digitais, que operam à base de mapas, estão a mudar radicalmente a forma como vivemos as nossas cidades e a definir quem tem direito a elas e quem fica à margem. A cidade contemporânea é uma fábrica de dados cedidos passivamente por nós, que passamos de cidadãos a consumidores, mas para que estes serviços existam, cria-se um submundo precário, de trabalho imigrante e turnos indefinidos”, alertam os cineastas.

Um dos momentos mais marcantes ocorreu na zona da Rua do Loureiro, onde se encontra uma das duas mesquitas da cidade. Ali, descobriu-se um plano de requalificação urbana que ameaça transformar o bairro num “polo de turismo de luxo”, com a consequente expulsão de moradores e o fecho da mesquita. “Quando soubemos disso, sentimos uma urgência ainda maior de filmar ali. O filme começou a ser reconfigurado.”

Durante as filmagens, os realizadores juntaram-se também a visitas organizadas pelo arquiteto Pedro Figueiredo — que leva pessoas em longas caminhadas pela cidade, criando um contra-mapa do Porto que fala da história da habitação na cidade desde o final do século XIX — por bairros do SAAL, ilhas e zonas esquecidas da cidade.

Mais do que um documentário sobre o Porto, A Cidade e os Mapas propõe uma reflexão sobre como uma cidade se transforma na era da globalização digital — um filme sobre quem a habita, sobre turismo e gentrificação, sobre imigração e habitação. “Ouvimos muitas vezes: ‘está tudo muito diferente’. Mas ninguém sabe exatamente o que está a acontecer, nem como o impedir. Este filme é uma tentativa de nomear essas forças que moldam as cidades por dentro e nos afastam uns dos outros.”

Com estreia prevista para o próximo ano no Porto/Post/Doc, o filme venceu a bolsa Working Class Heroes em 2024, projeto financiado pela Filmaporto e pela Fundação La Caixa, e conta com o apoio do ICA.