< notícias

Porto acolheu filmagens da adaptação de “Ternos Guerreiros”, de Agustina Bessa-Luís

Notícias
24 Ago 2026

O Porto foi um dos locais escolhidos para as filmagens de Ternos Guerreiros, nova produção da Leopardo Filmes, realizada por Francisco Botelho, que adapta livremente ao cinema o romance homónimo de Agustina Bessa-Luís. A longa-metragem terá também uma extensão ao formato de série, com seis episódios.

Com argumento de Filipa Martins, Vasco Gato e Francisco Botelho, o filme recupera a obra de Agustina Bessa-Luís para abordar temas como as relações de poder, o patriarcado, a crise de valores e a amoralidade, colocando-os em diálogo com questões que permanecem profundamente contemporâneas.

A vontade de levar Ternos Guerreiros ao cinema surgiu de um convite do produtor Paulo Branco, que conhecia e acompanhava o romance desde os anos 60. Para Francisco Botelho, que desconhecia até então a obra, o contacto com o livro revelou uma narrativa surpreendentemente próxima do presente, centrada em “mecanismos de poder, comportamentos, e estruturas humanas que persistem”. A adaptação representa também, para o realizador, a oportunidade de dar forma visual e corpo ao universo literário de Bessa-Luís através de uma jovem geração de atores, construindo um novo olhar sobre o pensamento de uma das grandes autoras da literatura portuguesa.

Em Ternos Guerreiros, Francisco Botelho encontrou uma história capaz de interpelar diretamente o espectador contemporâneo. A complexidade das personagens e a forma como Agustina aborda as relações de poder são centrais na leitura do realizador, que destaca a capacidade da autora para escapar a classificações simples entre vítimas e culpados. “O espectador vai reconhecer comportamentos. Vai reconhecer relações de poder, formas subtis de violência, pessoas que vivem condicionadas por expectativas sociais e que, ao mesmo tempo, desejam escapar-lhes”, explica Francisco Botelho.

Para o realizador, a força da escrita de Bessa-Luís está também na sua resistência a respostas fáceis. “Escreve personagens livres no sentido mais desconfortável da palavra: capazes do melhor e do pior. Hoje gostamos muito de organizar o mundo entre vítimas e culpados, entre razão e erro. A Agustina desconfia quase sempre dessas categorias, e obriga-nos a permanecer numa zona de ambiguidade. É por aí que a sua obra tanto vibra e resiste.”

Essa ambiguidade é também uma das características que permitem à obra atravessar décadas e continuar a dialogar com o presente. A reflexão estende-se ao próprio percurso de Domingos, protagonista masculino, e à ideia de que o estilo de vida pode tornar-se substituto do sentido da vida. “Dedicamos cada vez mais tempo a construir, e a gerir, uma imagem de como queremos viver, ou de como gostaríamos de viver, e menos tempo a questionar as razões disso mesmo”, afirma o realizador. Mais do que oferecer respostas, o filme procura criar um espaço de reflexão e interrogação.

Na cidade do Porto, a equipa filmou em vários locais emblemáticos. Entre as principais sequências destaca-se a filmagem na Praia do Molhe, na Foz, que, segundo Botelho, “acaba por determinar grande parte do filme”. O Grande Hotel de Paris, a Avenida dos Aliados, a Rua das Taipas e a Ribeira foram também cenários desta produção.

A presença do Porto assume uma dimensão relevante na construção visual do filme, contribuindo para a recriação do Portugal dos anos 50. No entanto, para Francisco Botelho, a época não deve ser o centro da narrativa nem se transformar num mero exercício de reconstituição histórica. “Para mim, num filme de época, a época nunca deve ser o assunto principal”, explica. O rigor histórico é importante, mas deve estar ao serviço da narrativa, uma vez que “aquilo que realmente atravessa o tempo não são as paredes, os objetos ou os figurinos, são as relações humanas”. A intenção é, assim, que o espectador deixe de olhar para a história como quem observa um passado distante e reconheça nas personagens, nos seus desejos e nos seus conflitos questões que continuam a fazer parte do presente.

Com a passagem das filmagens pelo Porto, Ternos Guerreiros junta-se a outras produções da Leopardo Filmes que têm encontrado na cidade espaços para desenvolver diferentes universos cinematográficos. Entre os projetos que passaram recentemente pelo Porto destacam-se Memórias do Cárcere, de Sérgio Graciano, e Aqui, de Tiago Guedes, reforçando o posicionamento da cidade como território de criação e produção cinematográfica e a sua capacidade para acolher diferentes épocas, narrativas e linguagens.